José Xavier Cortez: editor, livreiro, educador, brasileiro - Durval Muniz de Albuquerque Jr - Diário do Nordeste

2021-11-16 23:37:32 By : Mr. Alwen peng

Em tempos de tantas derrotas, tantas mortes, tantos jogos que deixam a sociedade e a cultura brasileiras mais pobres, mais debilitadas, esta última sexta-feira, 24 de setembro, nos deixou, vítimas do câncer, José Xavier Cortez, o fundador e alma da Cortez Editora e a livraria Cortez. Um nordestino que, como tantos outros, partiu em busca de uma vida melhor e que construiu uma trajetória de sucesso na cidade de São Paulo, da qual se tornou filho honorário.

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Cortez, como todos nós que tivemos a sorte de conhecê-lo o chamavam, nasceu no município de Currais Novos, no Rio Grande do Norte, em 1937, filho de pais agricultores, plantadores de algodão e pecuaristas. Passou boa parte da infância e adolescência entre o Sítio Santa Rita e a cidade de São Sebastião (antigo Mulungu), sonhando em ser caminhoneiro (costumava dirigir um caminhão imaginário nas estradas, tendo seu boné de couro como volante ), acordeonista (tornou-se, em São Paulo, um excelente forró, que frequentava religiosamente todos os fins de semana, depois de aparar os cabelos e a barba, no salão de cabeleireiro) e professor, pois seus pais sempre valorizaram a educação e se esforçaram para conseguir seus filhos para estudar. Ele dividia seu tempo entre o plantio e a colheita do algodão e os estudos.

Aos dezessete anos, migrou para o Sul, onde trabalhou como garimpeiro. Aos dezoito anos, ingressou na Marinha, acabando se envolvendo na chamada Revolta dos Marinheiros, episódio ocorrido em 25 de março de 1964, às vésperas do golpe civil-militar de 1964, quando marinheiros reunidos no Sindicato dos Metalúrgicos para comemorar o segundo aniversário da Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais, resistem à ordem de prisão do ministro da Marinha, Silvio Mota.

Preso, julgado e solto, Cortez decide deixar o Rio de Janeiro e ir para a cidade de São Paulo, onde chega em 1965. Vai trabalhar como lavador de carros em um estacionamento da Rua Asdrubal Nascimento, tornando-se posteriormente manobrista, ao aprender a dirigir. Em 1966, ingressou na PUC para estudar Economia e percebeu a dificuldade de seus colegas em encontrar certos livros. Como ele morava em uma casa de madeira perto da editora Atlas, ele começou a conseguir os livros para seus colegas em troca de uma encomenda. Com o apoio da Diretoria Acadêmica, ele acaba conseguindo autorização da direção da Universidade para instalar um estande de venda de livros no pátio da faculdade. 

Em 1968, no mesmo ano em que se casa com Portira Beserra, com quem teve três filhas (Maria Regina, Miriam e Márcia), em sociedade com Virgílio da Silva Fagá e Orozimbo José de Moraes, funda a Livraria Cortez & Moraes, ainda em funcionamento nas dependências da PUC, sendo posteriormente transferido para um prédio na Rua Kurt Nimuendaju, no entorno da universidade.

Em janeiro de 1980, quando a sociedade foi desfeita, ele passou a ser o único dono do que passou a se chamar Cortez Editora, que surgiu da impressão, ainda como apostila, de um verdadeiro best-seller acadêmico, o livro do professor Antônio Joaquim Severino, Científico Metodologia de Trabalho. Em 1998, a livraria e a editora foram transferidas para o prédio da esquina das ruas Bartira e Monte Alegre, no bairro de Perdizes, ao lado da PUC, universidade que teve uma importância decisiva em sua vida, em sua formação como politizado. cara. , com consciência social, preocupada com o destino do país, voltada para as causas sociais, amante da educação e da cultura, amante dos livros e da literatura.

Como espaço de resistência à ditadura, a PUC deu a Cortez a oportunidade de crescer como pessoa, mas também como editor, ao publicar livros e autores proibidos pela censura, tornando-se logo uma referência, no meio intelectual, de cidadania e a luta pela democracia e pelos direitos.

Foi a sua preocupação com as causas sociais que o levou a fazer da Cortez Editora uma referência em publicações na área do Serviço Social e da Educação. Sua vocação para o comércio se fez notar assim que o conhecemos. Ele era o editor dos sonhos de qualquer autor porque não tinha escrúpulos em encher um Fusca de Volkswagen com caixas de livros e vendê-los em praças, feiras, exposições.

A presença constante do stand da Cortez em qualquer evento de dimensão nacional garantiu a melhor publicidade possível. Como quem tem a sorte de tê-lo como editor, posso testemunhar o carinho que dedicava a cada lançamento, a honestidade, rara no meio editorial brasileiro, de pagar regularmente direitos autorais a seus autores, o esforço com que frequentava prefeitos. escritórios, governadores e governo federal buscando colocar os livros que editaram em programas oficiais.

Nos últimos anos, sofreu com a inadimplência do governo federal e de grandes livrarias em processo de recuperação judicial. Ele era apaixonado pela literatura infantil, base da educação, alfabetização e interesse pelo livro, a ponto de convencer os ladrões que invadiam sua livraria a roubá-lo, em 2005, praticamente mantendo-o em prisão particular, que a coisa O mais valioso O que eles podiam tirar de lá eram os livros para que seus filhos, no futuro, não tivessem que cair no caminho da criminalidade. Eu dei palestras em escolas para encorajar o amor pelo conhecimento, ciência e leitura. Em tempos de negação, propaganda de mentiras, desinformação e ignorância, em tempos fictícios, Cortez simbolizava a resistência a este país imbecil.

Cortez, já viúvo, em suas inúmeras viagens pelo interior do Nordeste, para divulgar os livros que estava publicando, soube por uma namorada da existência de minha tese sobre “A invenção do Nordeste”. Como um editor disposto a acolher as produções dos seus conterrâneos, sendo uma espécie de embaixador da cultura nordestina em São Paulo, como nunca esqueceu ou negou suas raízes, amava as coisas da região, sempre voltou a ela, ele pediu-me para enviar o trabalho para análise.

Algum tempo depois, recebi um parecer encorajador e muito competente indicando as mudanças e cortes que eu teria que fazer no monte de mil páginas que foi minha tese de doutorado para viabilizar sua publicação como livro. Em 1999, saiu a primeira edição de A invenção do Nordeste e outras artes, que começou a receber críticas e a vender em estados brasileiros como Pará, Rio Grande do Sul e São Paulo, o que Cortez não previa. Recebo um dos muitos telefonemas que dele já fez, sempre com a sua simpatia, a sua alegria, sobretudo com o seu entusiasmo, contando-me do sucesso da obra (até à data são cinco edições e nove reimpressões, além de tradução e publicação em inglês).

Começou a me pedir para escrever obras específicas, como a da importante coletânea Preconceito (Preconceito contra origem geográfica e lugar) e o livro Xenofobia: medo e rejeição ao estrangeiro. Agradeço muito a ele por ser o autor que sou hoje, sem sua generosidade, sem sua coragem de apostar em um iniciante, talvez não pudéssemos ter compartilhado, no último telefonema que ele me deu, a alegria de ver o livro que ele lançada transformada em peça de sucesso em sua cidade de São Paulo.

Quem teve o prazer de conhecer o Sr. Cortez jamais o esquecerá, ele foi uma pessoa gentil, gentil, cortês como seu nome indica, que nos recebeu com alegria e carinho. A última vez que nos vimos, já aposentado, ele me convidou para almoçar em sua casa, quando me contou parte de sua bela história, a história de um migrante, um migrante bem-sucedido, um grande cidadão brasileiro, que efetivamente amou seu país , porque, ao contrário de muitas das nossas elites, trabalhou muito para distribuir conhecimento, divulgar educação, leitura, ciência, preocupada com o futuro das crianças e do país.

O Brasil precisa de muitos José Xavier Cortez, que são "semeadores de livros", título do belo documentário a ele dedicado, do cineasta Wagner Bezerra, que valorizam a educação, a leitura, que valorizam o conhecimento, a ciência e a cultura, que se voltam para resolver as enormes desigualdades e as injustiças sociais daquele país. Sempre lembrarei de seu rosto indígena (que o fazia parecer um oriental) iluminar-se ao falar de seus novos projetos editoriais, suas ideias que sempre objetivaram difundir livros, valores e ideias por todo o país. Adeus querido amigo!

* Este texto reflete exclusivamente a opinião do autor.

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